jueves, 10 de mayo de 2012

Babar-te




Fotografei minha língua na tua
Imortalizei este gesto simples
De babar-te sem pudor ou medo
Quisera poder ter-te sempre ao meu lado
E babar-te diariamente
Como se esta fosse
Uma mais das rotinas obrigatórias
Mais feliz do que imaginas, conjugaria este verbo
Até a primeira pessoa do plural
E nossas línguas juntas
Fariam um nós












A estranha beleza do mundo
Começa onde muitas coisas terminam
No abraço que despede ao corpo querido
No sussurro do fim da voz
No último brilho de um sol poente
No quase recordar-se do detalhe remoto
Que não obstante permanece esquecido
A estranha beleza do mundo
É conteúdo para todo sentido
Mas sua presença infinita em tudo o que é ou pode ser
Faz dela uma certeza ausente
Uma intuição permanente
Que se esconde cada vez mais distante
Se por ela se busca obstinadamente
A estranha beleza do mundo
Requer do mundo um voto de silêncio
Convida a um deixar-se estar
Mais que por amor
Por pura boa vontade
E assim
Goteando suas maravilhas
De maneira tão impertinente
Essa estranha beleza realiza-se profunda e lentamente
Como aquilo que passa sempre despercebido de muitos
Pese a ser tão minuciosamente observado por outros
A estranha beleza do mundo tem um pacto com o tempo
Nunca puderam concordar sobre forma, ritmo ou objetivo
E por isso nunca se convidam a tertúlias no chá das cinco
Mas se respeitam profundamente
E sempre que podem
Dançam em silêncio
Ao meio deste gigante salão
Que em outras prosas se chama vida.





jueves, 15 de marzo de 2012

O que nunca se teve



Quando surgiu essa dor em mim

Pensei que a loucura entrava

Desenfreada em minha casa

Deixando atrás de si uma porta aberta

Sem chave que a pudesse fechar

Como pode um braço sentir a ausência de uma mão que nunca houve?

Como pode o peito encolher-se de saudade daquilo que nunca amou?

E eis que se perde o que não se teve

E se sofre o que não se merece

Pequeno é o olho que não enxerga

Os vastos campos de tudo aquilo que se deseja

Quando se sabe dos caminhos suas curvas

E das possibilidades os seus fracassos

Pode-se intensamente prezar

O que poderia haver sido

E assim chora o olho sem haver visto

Exala o pulmão sem haver respirado

Nada o corpo imerso a um mar imaginário

Como se todas as caravelas içassem suas velas

Com destino a horizontes nunca antes inventados





sábado, 24 de septiembre de 2011

Azuladamente




Queria falar
De grandes amores
Mas a caneta pequena
Proibiu-me azuladamente
Esta licença poética

Surpreendente

Pergunto-me quando
Transformei-me em mãe de meu amante
Em desejo de meu inimigo
Em esperança de um desconhecido
Em ternura para minhas irmãs
E dou-me conta
De tudo isso que vem passando
Pouco a pouco
Como a água de um córrego perdido
Que suavemente
Imprime suas marcas
Sem pressa e sem pausa
E eis que a vida correu suas águas
E me trouxe-me plácida a beira de outro rio
De outra foz de mim mesma
A que vejo tão concreta
Inesperada,
Surpreendente em seu encontro com outro mar.
E sei que estava longe
Caindo qual uma cachoeira
Que cria mundos imprevistos
Aos quais recebo agora
De braços abertos
E com todas as rugas
Que enfim
Faço minhas.

lunes, 12 de septiembre de 2011




Inconclusivo



Chove este Agosto



Goteando intenso



Como ele só



Sobre minha



Espera vã










Deslocamentos


Anda, segue em frente
Que a perna agüenta
Talvez nasçam calos
E talvez os dedos reclamem
Querendo menos calor
Mas o atrito com o mundo
É mesmo inevitável
E os dedos se acostumam
Como também o fazem
As vísceras.
Anda, segue em frente
Aqui desde a esquina
Vou acompanhar a sua figura
Até ver que ela desaparece
Independente num horizonte
Que não se alcança
Anda mesmo
Que ninguém sabe
O que nos pertence
E meus dedos e vísceras estão
Mais acostumados
Que os seus
Ao mundo
E aos meus deslocamentos.
.