domingo, 4 de octubre de 2009

Globalized me

Muitos dias da semana têm parecido um trampolim para um futuro, muito distante, onde as coisas serão melhores. É um sintoma, eu sei, de que a ampulheta de minha paciência está perdendo seus últimos grãos de areia. A Europa é muito diferente, agora que vivo nela. Talvez eu saiba mais do mundo, talvez saiba muito menos, mas o que sim já é um começo de ponto de vista formado é essa impressão muito forte de que há aqui um rancor generalizado, incubado em anos de reprodução de status quo e assado numa visão racista, xenofóbica, perversa e cafona. Isso sim, tudo disfarçado em discursos de democracia internacionalizada e globalização, e as mil e uma novas maravilhas de depender do norte do mundo em dez lições (sentença que resume os últimos vinte anos de discurso político europeu). São eurocêntricos os Europeus, assim como deveriam ser mesocêntricas as mesas, baleiocêntricas as baleias e crocodilocêntricos os crocodilos, como dizia o antropólogo brasileiro a quem não convém citar (pode que ele não o queira). Eu sou uma perdido-cêntrica. Sofri uma desilusão quase surrealista quando descobri que a pós-modernidade é aqui uma corrente de pensamento e talvez até de arte, apenas aderida por gente de gostos duvidosos e excêntricos (nunca melhor dito), ou gente de gostos vendíveis e intenções perigosas, tão elevadas quando o preço de venda dos quadros de Dali nos leiloes de Nova Iorque. No Brasil a pós modernidade era para mim algo que enfim podia explicar um pouco melhor nossa forma anti-européia de ser. Que seria talvez nossa forma outra-coisa-que-não européia de ser. Ou pelo menos abria algum espaço para que nós inventássemos uma explicação desse tipo, que contemplasse nossa ocidentalidade extra-ocidental. Que sensação maravilhosa era essa. Mas o certo mesmo é que essa liberdade de criar-se a si mesmo não é uma agenda pública internacional, e não equivale aquela liberdade de mercado da que nos hão saturado até os últimos centímetros cúbicos de nossa pele. Eu teria talvez que escrever oitocentas e trinta e quatro páginas para explicar quantas vezes tive minhas liberdades diminuídas no velho mundo. O velho mundo tem mofo, o que significa que eu tenho mofo também, por que estou nele e sou parte dele agora, quer ele queira, quer não. E ao sugar meu cérebro pensante, também beberam da minha capacidade de ver a Europa como um estranho monstro. Também sugaram (e agora que se altere Hegel em seu túmulo) o gérmen daquilo que pode ser sua própria negação. E o que é pior é que estão financiando sua própria negação com uma bolsa de incentivo à pesquisa. Que gozo vê-lo assim. Um gozo de gente explorada que tem que se contentar com as pequenas auto-satisfaçoes dos miseráveis. Somos muitos os miseráveis latinoamericanos-africanos-asiáticos trabalhando e construindo um futuro brilhante, isso dizem, do qual participaremos com cotas minoritárias. Não é novidade. Não vem sendo muito diferente nos últimos seiscentos anos. Mas agora eu estou na Europa e antes havia oceanos entre capatazes e remadores. É difícil aceitar a necessidade de nossa presença. Nós mesmo tentamos disfarçar-la e muitas vezes nos contentamos com o anonimato da cozinha, do jardim, dos fundos da repartição pública ou da assinatura não feita no final de cada obra acabada. Essa Europa do mercado comum foge a nossa sombra, e nos mantém em penumbra, por que é difícil conviver com a imagem do que somos. Seremos uma Europa do futuro, por que o presente da Europa depende de nós. Eu, voltando àquilo da alegria dos miseráveis, às vezes me divirto em pensar quantas autoridades estarão lendo coisas que escrevi, nas quais não consta meu nome, obviamente, em diversos e importantes projetos de tudo um pouco, elogiando talvez a astúcia das conclusões ou a disciplina de uma retórica incansável e minuciosa (que vez ou outra, com muita sorte e três doses de sublimação, alcanço em minha escrita) e respirando tranqüilos à permanência da “boa forma” e da eficiência inegável com que uma e outra vez, se elaboram as coisas aqui. Um aqui, dizem eles, muito diferente dos “aquis” de além mar. Saberão eles quem somos os muitos e jovens intelectuais a quem se entrega a tarefa de fazer funcionar a universidade espanhola? Uma vez escutei um professor de filosofia dizer publicamente em um conselho da universidade, que nada dentro daquelas paredes funcionaria sem os muito bolsistas subordinados às lógicas subordinação. (A redundância é necessária, creiam-me). Uma universidade assim funciona sem reitores, mas não funciona sem bolsistas, dizia ele. Mas também são espanhóis os bolsistas envolvidos nesse processo, os mesmo que se cansam e migram para outros países mais ao norte, e mais “no norte”, onde enfim, podem entender a ironia que nós, imigrantes nessa Espanha tardiamente quixotesca, destilamos soberbamente em cada café com leite na cafeteria da esquina. De qualquer esquina, que isso não vem ao caso. É a soberbia que nos cabe. Tem sabor a anis e sua trilha sonora é um blues. Um blues americano, por que é americana e mal reproduzida a melodia diária que nos acompanha em todos os lugares. Até nas privacidades confortáveis dos banheiros de nossas casas, quando cantamos aquilo que nos sai de um alma que nos foi perdida talvez há décadas atrás, como insistia Benjamin em sua trans-histórica clarividência. Dia sim, dia nao, me pergunto o que somos nessa Europa, o trampolim ou o salto?


Fevereiro 2009

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